Óleo de peixe oxidado: o que a análise de 51 suplementos vendidos em São Paulo encontrou

8 min de leitura
Esferas translúcidas douradas sobre superfície creme, ao lado de um frasco de vidro âmbar de laboratório
Quase todo mundo que compra ômega-3 olha o número na frente do frasco. Poucos sabem que existe um segundo conjunto de números — os que descrevem o estado de conservação daquele óleo — e que ele quase nunca aparece na embalagem. Uma tese de doutorado da USP mediu exatamente isso em 51 produtos vendidos em São Paulo.

O que foi analisado, por quem e como

A pesquisa é uma tese de doutorado defendida em 2023 na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, de autoria de Mahyara Markievicz Mancio Kus-Yamashita, sob orientação do Prof. Dr. Jorge Mancini Filho. Foram avaliadas 51 amostras comerciais de óleo de peixe encapsulado adquiridas no estado de São Paulo.

Os parâmetros medidos foram os três indicadores clássicos de oxidação lipídica — índice de peróxidos, valor de p-anisidina e TOTOX — além da quantificação de EPA e DHA para comparação com o que estava declarado no rótulo. Os limites de referência adotados foram os do Codex Alimentarius, norma internacional CXS 329-2017, específica para óleos de peixe.

Os resultados

51 AMOSTRAS — SÃO PAULO — FCF/USP, 2023

90,2% das amostras excederam o limite de índice de peróxidos
23,5% excederam o limite de p-anisidina
72,6% excederam o limite de TOTOX
74,5% apresentaram divergência entre o EPA analisado e o EPA declarado no rótulo
84,3% apresentaram divergência entre o DHA analisado e o DHA declarado no rótulo

Fonte: Kus-Yamashita MMM. Tese de doutorado, FCF-USP, 2023. Limites: Codex Alimentarius CXS 329-2017.

O estudo também observou que boa parte das amostras atingiu os limites de oxidação dentro de 30 dias de armazenamento, e apontou a qualidade do encapsulamento como fator crítico para conter a degradação de EPA e DHA. Ou seja: não se trata apenas de como o óleo chega, mas de como ele se comporta na prateleira e depois de aberto na casa de quem compra.

O que significa cada um desses três números

Óleo de peixe é rico em ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa. É justamente essa estrutura química — com múltiplas duplas ligações — que o torna nutricionalmente interessante e, ao mesmo tempo, quimicamente frágil. Quando exposto a oxigênio, luz, calor ou metais, o óleo oxida. A oxidação acontece em duas etapas, e cada indicador mede uma delas.

Indicador O que mede Limite Codex CXS 329-2017
Índice de peróxidos (PV) Produtos primários da oxidação — os peróxidos que se formam primeiro. É um marcador de oxidação recente. ≤ 5 meq de oxigênio ativo/kg
p-anisidina (AV) Produtos secundários — aldeídos formados quando os peróxidos se decompõem. É o marcador de oxidação mais antiga, e é o que gera odor e sabor de ranço. ≤ 20
TOTOX Índice combinado: (2 × PV) + AV. Dá a leitura total, primária e secundária, num único número. ≤ 26

A combinação importa porque os dois primeiros isoladamente enganam. Um óleo muito velho pode ter índice de peróxidos baixo simplesmente porque os peróxidos já se decompõeram em aldeídos — e nesse caso o valor de p-anisidina estará alto. Ler só um dos dois pode dar uma falsa impressão de frescor. É por isso que o TOTOX existe.

Não é um problema só brasileiro

O achado da USP conversa com uma literatura internacional consistente. O estudo mais citado nesse campo é o de Albert e colaboradores, publicado na Scientific Reports em 2015, que analisou suplementos de óleo de peixe vendidos na Nova Zelândia e concluiu que a maioria estava oxidada acima dos limites recomendados e não entregava o teor de ômega-3 declarado no rótulo.

Revisões posteriores indicam que, dependendo do mercado e do método de amostragem, entre 50% e 80% dos suplementos testados excedem algum dos limites recomendados de oxidação. É um problema estrutural de uma categoria que trabalha com uma matéria-prima intrinsecamente instável.

O que a evidência ainda não sustenta

Oxidação alta não é sinônimo comprovado de dano à saúde.

Este é o ponto que costuma ser omitido quando esses estudos viram manchete. Uma análise publicada no Journal of Nutritional Science (Cameron-Smith, Albert e Cutfield, 2015) é explícita: os efeitos biológicos e as consequências para a saúde do consumo de óleo de peixe oxidado ainda não estão estabelecidos, e faltam dados toxicológicos em humanos. Os autores tratam isso como uma lacuna urgente de pesquisa — não como uma conclusão sobre dano comprovado.

O que se pode afirmar com segurança é mais modesto e ainda assim relevante: oxidação alta indica perda de qualidade e de estabilidade do produto, e está associada a menor teor efetivo de EPA e DHA do que o rótulo promete. É um problema de o consumidor não receber o que comprou, antes de ser uma questão de segurança.

O que isso muda na hora de escolher

A conclusão prática não é deixar de suplementar ômega-3. É deslocar a atenção do número grande na frente do frasco para o que sustenta aquele número.

1. Teor de EPA e DHA declarado separadamente. “1.000 mg de óleo de peixe” não é a mesma coisa que “1.000 mg de EPA e DHA”. O dado relevante é quanto de cada um há por porção.

2. Existência de laudo analítico do lote. Índice de peróxidos, p-anisidina e TOTOX são medidos por análise físico-química de laboratório. Se o fabricante mede, ele consegue informar.

3. Embalagem e barreira ao oxigênio. O estudo da USP aponta o encapsulamento como fator crítico. Frasco opaco, bem vedado e armazenamento ao abrigo de luz e calor são parte da conservação — inclusive na sua casa.

4. Prazo e giro. Óleo de peixe não melhora com o tempo. Data de fabricação recente importa mais nessa categoria do que na média dos suplementos.

5. Odor. Ranço perceptível ao abrir uma cápsula é sinal de oxidação avançada. Não é um teste de laboratório, mas é o único que qualquer pessoa consegue fazer em casa.

Por que a FDC fala sobre isso

A FDC tem laboratório próprio e faz controle analítico de matéria-prima e de produto acabado — é o mesmo tipo de estrutura que permite medir os parâmetros discutidos neste artigo. Publicar um estudo que expõe uma fragilidade da categoria em que a própria marca atua é uma escolha deliberada: parâmetro que ninguém conhece é parâmetro que ninguém cobra.

Para o passo seguinte — como comparar dois produtos pelo teor de EPA e DHA —, veja nosso artigo sobre como escolher um ômega-3 por EPA e DHA.

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Referências

  1. Kus-Yamashita MMM. Avaliação das características químicas dos óleos de peixe encapsulados comercializados no estado de São Paulo [tese de doutorado]. São Paulo: Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade de São Paulo; 2023. Orientador: Jorge Mancini Filho. Disponível em: teses.usp.br
  2. Codex Alimentarius. Standard for Fish Oils, CXS 329-2017. Adotada em 2017, emendada em 2021 e 2024. FAO/WHO.
  3. Albert BB, Derraik JGB, Cameron-Smith D, et al. Fish oil supplements in New Zealand are highly oxidised and do not meet label content of n-3 PUFA. Sci Rep. 2015;5:7928. DOI: 10.1038/srep07928
  4. Cameron-Smith D, Albert BB, Cutfield WS. Fishing for answers: is oxidation of fish oil supplements a problem? J Nutr Sci. 2015;4:e36. DOI: 10.1017/jns.2015.26
  5. Agência Universitária de Notícias, Universidade de São Paulo. Óleos de peixe encapsulados em São Paulo possuem altos níveis de oxidação e inconformidade com os rótulos. 19 nov. 2024. Disponível em: aun.webhostusp.sti.usp.br

Perguntas frequentes

O que é índice de peróxidos em um ômega-3?

É a medida dos produtos primários da oxidação do óleo — os peróxidos que se formam quando o óleo entra em contato com oxigênio, luz ou calor. O Codex Alimentarius CXS 329-2017 estabelece o limite de 5 miliequivalentes de oxigênio ativo por quilo de óleo.

O que é TOTOX e qual o valor aceitável?

TOTOX é o índice de oxidação total: duas vezes o índice de peróxidos somado ao valor de p-anisidina. Ele reúne oxidação primária e secundária num único número. O limite do Codex Alimentarius CXS 329-2017 é 26.

Ômega-3 oxidado faz mal à saúde?

Não há evidência estabelecida sobre consequências toxicológicas em humanos — a literatura reconhece essa lacuna de forma explícita. O que a oxidação alta indica com segurança é perda de qualidade e de estabilidade do produto, associada a menor teor efetivo de EPA e DHA do que o declarado no rótulo.

Como saber se o meu ômega-3 está oxidado?

A medida objetiva é o laudo analítico do lote, com índice de peróxidos, p-anisidina e TOTOX. Em casa, o único indício acessível é o odor: cheiro forte de ranço ao abrir uma cápsula sugere oxidação avançada. Armazenar ao abrigo de luz e calor ajuda a preservar o produto.

Quantos suplementos estavam fora do limite no estudo da USP?

Das 51 amostras compradas no estado de São Paulo, 90,2% excederam o limite de índice de peróxidos, 23,5% o de p-anisidina e 72,6% o de TOTOX. Além disso, 74,5% divergiram do EPA declarado e 84,3% do DHA declarado no rótulo.

As informações fornecidas neste site destinam-se ao conhecimento geral e não devem substituir o atendimento médico ou o tratamento de condições específicas de saúde. As informações contidas aqui não se destinam a diagnosticar, tratar, curar ou prevenir qualquer doença. Procure sempre o aconselhamento do seu médico ou outro prestador de cuidados de saúde qualificado com qualquer dúvida sobre sua condição médica. Nunca desconsidere o conselho médico nem demore a buscá-lo por causa de algo que tenha lido em nosso site ou mídias sociais.

Suplementos alimentares não substituem medicamentos nem uma alimentação variada e equilibrada. Consulte um profissional de saúde antes de iniciar a suplementação. Não exceder a dose diária recomendada.

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EPA e DHA certificados, testados contra metais pesados. Matéria-prima MSC.

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