Magnésio elementar: por que a lista de fontes no rótulo não diz quanto você está tomando

10 min de leitura
Balança analítica de precisão com pó mineral branco sobre superfície creme, em ambiente de laboratório
Dois suplementos de magnésio. O primeiro anuncia cinco fontes diferentes na frente do frasco. O segundo anuncia uma só. Parece óbvio qual entrega mais magnésio — e é exatamente aí que a intuição erra. A quantidade de magnésio que chega ao seu organismo não depende de quantas fontes o rótulo lista, mas de um número que raramente aparece em destaque.

Magnésio puro não existe em suplemento

Magnésio é um metal alcalino-terroso. Na forma pura, ele reage com água. Por isso, em qualquer suplemento, o magnésio está sempre ligado a outra molécula — um sal inorgânico como óxido ou carbonato, um sal orgânico como citrato ou lactato, ou um aminoácido, como no bisglicinato.

Essa molécula acompanhante tem peso. E o peso dela entra na conta do que está dentro da cápsula. Quando o rótulo diz “500 mg de citrato de magnésio”, esses 500 mg são do composto inteiro — magnésio mais citrato. A fração que corresponde de fato ao mineral é o que se chama de magnésio elementar.

Quanto de magnésio elementar existe em cada forma

Os percentuais abaixo são estequiométricos: a razão entre a massa atômica do magnésio (24,305 g/mol) e a massa molar do composto. São valores teóricos para o composto puro, calculados a partir dos registros do PubChem.

Forma Fórmula Magnésio elementar
Óxido de magnésio MgO 60,3%
Hidróxido de magnésio Mg(OH)₂ 41,7%
Carbonato de magnésio MgCO₃ 28,8%
Cloreto de magnésio (anidro) MgCl₂ 25,5%
Citrato de magnésio (trimagnésio dicitrato anidro) C₁₂H₁₀Mg₃O₁₄ 16,2%
Malato de magnésio (anidro) C₄H₄MgO₅ 15,5%
Bisglicinato de magnésio (anidro) C₄H₈MgN₂O₄ 14,1%
Lactato de magnésio (anidro) C₆H₁₀MgO₆ 12,0%
Cloreto de magnésio hexaidratado MgCl₂·6H₂O 12,0%
Sulfato de magnésio heptaidratado MgSO₄·7H₂O 9,9%
Taurato de magnésio C₄H₁₂MgN₂O₆S₂ 8,9%
L-treonato de magnésio C₈H₁₄MgO₁₀ 8,3%
Orotato de magnésio (anidro) C₁₀H₆MgN₄O₈ 7,3%
A CONTA NA PRÁTICA

500 mg de óxido de magnésio → cerca de 301 mg de magnésio elementar
500 mg de bisglicinato de magnésio → cerca de 71 mg de magnésio elementar

A mesma massa de pó dentro da cápsula. Mais de quatro vezes de diferença no mineral entregue.

O detalhe que quase ninguém menciona: hidratação e tamponamento

Os números da tabela valem para o composto anidro e puro. Na prática industrial, dois fatores mudam o resultado:

Grau de hidratação. Muitos sais são comercializados com moléculas de água na estrutura. Cloreto de magnésio anidro tem 25,5% de magnésio elementar; o hexaidratado tem 12,0%. É o mesmo sal, com menos da metade do teor. A própria ANVISA reconhece isso: a Instrução Normativa nº 28/2018 estabelece, no artigo 4º, que “consideram-se incluídos os diferentes graus de hidratação dos constituintes listados”.

Tamponamento. Boa parte do bisglicinato vendido no mundo é do tipo buffered — quelato misturado com óxido de magnésio justamente para elevar o teor elementar. O fabricante Balchem/Albion descreve a versão tamponada como combinando “alto valor de magnésio elementar com alta biodisponibilidade”. Quem compra bisglicinato tamponado está comprando, em parte, óxido. Isso não é fraude: é uma escolha técnica legítima e comum. Mas significa que o rótulo “bisglicinato” sozinho não permite deduzir o teor elementar.

A conclusão prática: nenhuma tabela — inclusive esta — substitui o laudo do lote. O percentual real de magnésio elementar de uma matéria-prima específica vem do certificado de análise do fornecedor, não de uma conta feita a partir da fórmula química. Um rótulo que declara o magnésio elementar em miligramas dispensa o consumidor de calcular.

Mais fontes significa mais qualidade? A evidência é mais modesta do que o marketing

Aqui é onde este artigo se afasta do discurso comum de categoria. A ideia de que formas orgânicas e quelatos são muito superiores ao óxido é repetida como consenso, e não é bem isso que a literatura mostra.

O que está bem estabelecido é apenas o extremo: o óxido de magnésio é a forma com pior absorção fracionada. Firoz e Graber (2001) mediram absorção de cerca de 4% para o óxido — mas o mesmo estudo concluiu que cloreto, lactato e aspartato foram equivalentes entre si, e os autores registram que “sais inorgânicos de magnésio, dependendo da preparação, podem ter biodisponibilidade equivalente à de sais orgânicos”.

O que os ensaios comparativos mostram:

Kappeler et al. (2017) — ensaio cruzado, 20 homens saudáveis, dose única de 300 mg. Citrato superou o óxido, com diferença ajustada de 0,565 mmol na excreção urinária de 24 h (p = 0,0034) — cerca de 8,4%. Estudo financiado pelo fabricante do citrato testado.

Schuette et al. (1994) — duplo-cego cruzado com magnésio-26 marcado, comparando diglicinato e óxido. Sem diferença no grupo total: 23,5% contra 22,8%. A vantagem do quelato apareceu apenas num subgrupo de 4 pacientes com absorção comprometida.

Schutten et al. (2022) — o maior e mais longo: ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, 164 participantes, 24 semanas, 450 mg/dia. Comparou citrato, óxido e sulfato. Os efeitos sobre o magnésio plasmático foram semelhantes entre os grupos.
O que a evidência não sustenta:

Que uma forma quelada seja “três vezes mais absorvida” que o óxido. Que bisglicinato seja comprovadamente superior às demais — o único ensaio humano com isótopo estável não encontrou diferença. Que somar cinco fontes numa mesma cápsula produza absorção somada ou superior: não há ensaio clínico comparando fórmulas multi-fonte contra fórmula de fonte única.

A revisão de Schuchardt e Hahn (2017) resume: “o tipo de sal de magnésio parece menos relevante do que frequentemente se pensa” — e aponta que a dose ingerida, o estado de magnésio da pessoa e o fracionamento ao longo do dia pesam mais do que a escolha do sal.

Há ainda um problema metodológico de fundo: excreção urinária maior, o desfecho mais usado nesses estudos, pode indicar melhor absorção ou simplesmente que o organismo está eliminando o excesso.

Isso não torna a escolha da forma irrelevante. Torna a escolha um critério secundário — que só faz sentido discutir depois que a dose elementar está clara. Uma fórmula com várias fontes pode ser uma decisão técnica sensata, por tolerância digestiva, por perfil de dissolução ou por estabilidade. O que ela não é, pela evidência disponível, é uma garantia automática de mais magnésio.

O que a ANVISA exige e permite

A norma brasileira que rege suplementos alimentares é a Instrução Normativa nº 28/2018, vigente com alterações — a mais recente é a IN nº 450, de junho de 2026. Ela define, por faixa etária, quanto de cada nutriente um suplemento precisa ter e quanto não pode ultrapassar.

Magnésio — adultos (acima de 19 anos) Valor Referência
Mínimo por recomendação diária 63 mg Anexo III, IN nº 28/2018
Máximo por recomendação diária 350 mg Anexo IV, IN nº 28/2018
Valor Diário de Referência (VDR) 420 mg Anexo II, IN 75/2020

Dois pontos costumam gerar confusão. O primeiro: o VDR de 420 mg é a referência de rotulagem para o total da dieta, enquanto o teto de 350 mg vale para o que vem do suplemento. Não são números contraditórios — medem coisas diferentes. O segundo: a antiga IDR de 260 mg da RDC nº 269/2005 não está mais em vigor; aquela resolução foi revogada pela RDC nº 429/2020. Referências a 260 mg em conteúdos de suplementação circulam até hoje e estão desatualizadas.

As sete alegações de magnésio autorizadas no Brasil

O Anexo V da IN nº 28/2018 lista, com redação fechada, o que um suplemento de magnésio pode afirmar. São estas — e somente estas:

O magnésio auxilia na formação de ossos e dentes.
O magnésio auxilia no metabolismo energético.
O magnésio auxilia no metabolismo de proteínas, carboidratos e gorduras.
O magnésio auxilia no equilíbrio dos eletrólitos.
O magnésio auxilia no funcionamento muscular.
O magnésio auxilia no funcionamento neuromuscular.
O magnésio auxilia no processo de divisão celular.

Para usar qualquer uma delas, o produto precisa fornecer ao menos 63 mg de magnésio na recomendação diária. Para declarar “alto teor de magnésio”, o dobro: 126 mg, sem ultrapassar 350 mg.

Repare no verbo: auxilia. Não existe alegação autorizada de magnésio para sono, ansiedade, estresse, cãibras ou relaxamento. Quando um rótulo ou anúncio promete isso, está fora do que a norma permite — independentemente de o consumidor achar a promessa plausível.

Como ler um rótulo de magnésio em trinta segundos

1. Procure “magnésio” na tabela nutricional, em miligramas. Esse é o elementar. Se só houver o nome do sal e a massa do composto, o rótulo está pedindo que você faça a conta.

2. Compare com a faixa da IN nº 28/2018: entre 63 mg e 350 mg por dia para adultos.

3. Veja o %VD, calculado sobre 420 mg.

4. Só então olhe as formas. Elas informam sobre tolerância e perfil de dissolução — não sobre quantidade.

5. Confira a recomendação diária em número de cápsulas. Uma dose declarada para 3 cápsulas não se compara diretamente a uma declarada para 1.

A FDC declara o teor elementar de cada mineral na tabela nutricional. Conheça a linha completa.

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Referências

  1. ANVISA. Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018 — Anexos I, III, IV e V. Vigente com alterações (última: IN nº 450, de 10/06/2026). Disponível em: in.gov.br
  2. ANVISA. Instrução Normativa nº 75, de 8 de outubro de 2020 — Anexo II, Valores Diários de Referência.
  3. ANVISA. Resolução RDC nº 429, de 8 de outubro de 2020 (revoga a RDC nº 269/2005).
  4. PubChem, National Library of Medicine. Registros de massa molar e fórmula dos compostos de magnésio citados. Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov
  5. Firoz M, Graber M. Bioavailability of US commercial magnesium preparations. Magnes Res. 2001;14(4):257–262. PMID: 11794633
  6. Kappeler D et al. Higher bioavailability of magnesium citrate as compared to magnesium oxide. BMC Nutr. 2017;3:7. DOI: 10.1186/s40795-016-0121-3
  7. Schuette SA, Lashner BA, Janghorbani M. Bioavailability of magnesium diglycinate vs magnesium oxide in patients with ileal resection. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 1994;18(5):430–435. DOI: 10.1177/0148607194018005430
  8. Schutten JC et al. Effects of magnesium citrate, magnesium oxide and magnesium sulfate supplementation on arterial stiffness. J Am Heart Assoc. 2022;11(6):e021783. DOI: 10.1161/JAHA.121.021783
  9. Schuchardt JP, Hahn A. Intestinal absorption and factors influencing bioavailability of magnesium: an update. Curr Nutr Food Sci. 2017;13(4):260–278. DOI: 10.2174/1573401313666170427162740
  10. NIH Office of Dietary Supplements. Magnesium — Fact Sheet for Health Professionals. Disponível em: ods.od.nih.gov

Perguntas frequentes

O que é magnésio elementar?

É a fração da massa do composto que corresponde ao mineral em si, sem a molécula à qual ele está ligado. Em 500 mg de óxido de magnésio há cerca de 301 mg de magnésio elementar; em 500 mg de bisglicinato, cerca de 71 mg.

Qual forma de magnésio tem mais magnésio elementar?

O óxido, com 60,3%, seguido do hidróxido (41,7%) e do carbonato (28,8%). Entre as formas orgânicas e queladas, o citrato anidro tem 16,2%, o malato 15,5% e o bisglicinato 14,1%. Formas hidratadas têm teor menor.

Bisglicinato de magnésio é melhor que óxido?

O óxido é a forma com pior absorção fracionada documentada. Mas o único ensaio humano com isótopo estável comparando diglicinato e óxido não encontrou diferença na população total (23,5% contra 22,8%). Revisões recentes concluem que o tipo de sal é menos relevante do que se costuma afirmar — dose e fracionamento pesam mais.

Qual o limite de magnésio por dia segundo a ANVISA?

Para adultos acima de 19 anos, a IN nº 28/2018 estabelece mínimo de 63 mg e máximo de 350 mg por recomendação diária de consumo em suplementos. O Valor Diário de Referência para rotulagem é 420 mg.

Quais alegações sobre magnésio são autorizadas no Brasil?

São sete, com redação fechada no Anexo V da IN nº 28/2018: formação de ossos e dentes, metabolismo energético, metabolismo de proteínas/carboidratos/gorduras, equilíbrio dos eletrólitos, funcionamento muscular, funcionamento neuromuscular e divisão celular. Não há alegação autorizada para sono, ansiedade, estresse ou cãibras.

As informações fornecidas neste site destinam-se ao conhecimento geral e não devem substituir o atendimento médico ou o tratamento de condições específicas de saúde. As informações contidas aqui não se destinam a diagnosticar, tratar, curar ou prevenir qualquer doença. Procure sempre o aconselhamento do seu médico ou outro prestador de cuidados de saúde qualificado com qualquer dúvida sobre sua condição médica. Nunca desconsidere o conselho médico nem demore a buscá-lo por causa de algo que tenha lido em nosso site ou mídias sociais.

Suplementos alimentares não substituem medicamentos nem uma alimentação variada e equilibrada. Consulte um profissional de saúde antes de iniciar a suplementação. Não exceder a dose diária recomendada.

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