HPLC e absorção atômica: como se mede o que está escrito no rótulo

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Instrumento analítico de laboratório em aço inox com rack de frascos de vidro sobre bancada
Um rótulo que diz “1.000 mg de vitamina C” está fazendo uma afirmação quantitativa sobre o conteúdo de um comprimido. Essa afirmação só se torna um fato quando alguém mede. Este artigo explica como essa medida é feita — e por que vitaminas e minerais precisam de dois equipamentos completamente diferentes.

Por que não existe um método único

A diferença começa na natureza química do que se quer medir.

Vitaminas são moléculas orgânicas. Ácido ascórbico, colecalciferol, tocoferol, cianocobalamina — todos são estruturas de carbono, com massa, polaridade e comportamento próprios. Para quantificá-las, é preciso primeiro separá-las de tudo o mais que existe na amostra (excipientes, corantes, outras vitaminas) e só então medir a quantidade de cada uma.

Minerais são elementos químicos. Cálcio, magnésio, zinco, ferro, selênio. Não há molécula para separar: há um átomo, e cada átomo tem uma assinatura própria de absorção de luz. A medição não passa por separação — passa por identificação atômica.

São dois problemas analíticos distintos, e por isso duas técnicas distintas.

HPLC — cromatografia líquida de alta eficiência

A sigla vem do inglês High Performance Liquid Chromatography. Em português, cromatografia líquida de alta eficiência, ou CLAE.

O princípio é uma corrida. A amostra é dissolvida e empurrada, sob alta pressão, através de uma coluna preenchida com um material de partículas muito finas — a fase estacionária. Cada substância presente interage de um jeito diferente com esse material: algumas ficam mais retidas, outras passam mais rápido. No fim da coluna, um detector registra o que sai e quando sai.

O QUE O EQUIPAMENTO ENTREGA

Tempo de retenção — quanto tempo a substância levou para atravessar a coluna. É a identidade: em condições fixas, cada composto sempre demora o mesmo tempo.

Área do pico — o tamanho do sinal registrado pelo detector. É a quantidade: quanto maior a área, mais substância.

A conversão da área em miligramas é feita por uma curva de calibração, construída com padrões de concentração conhecida analisados no mesmo dia, no mesmo equipamento.

É o método de referência para vitamina C, vitaminas A, D e E, o complexo B e a coenzima Q10, entre outros. A Farmacopeia Brasileira, publicada pela ANVISA, descreve a cromatografia líquida entre os métodos gerais de análise, e a literatura brasileira registra validações de métodos por HPLC especificamente para determinação de vitaminas em suplementos.

Um detalhe que costuma passar batido: EPA e DHA não são medidos por HPLC

Os ácidos graxos de um ômega-3 são normalmente quantificados por cromatografia gasosa, depois de convertidos em ésteres metílicos. É a mesma lógica de separação, com gás em vez de líquido como fase móvel. Quem afirma medir EPA e DHA “por HPLC” provavelmente está descrevendo o processo de forma imprecisa.

Espectrometria de absorção atômica

Aqui o princípio é outro. A amostra é primeiro destruída — digerida em ácido, para liberar os minerais da matriz — e depois atomizada, seja por uma chama, seja por um forno de grafite. Nessa condição, os átomos do elemento ficam em estado livre.

Sobre eles incide a luz de uma lâmpada feita do próprio elemento que se quer medir. Uma lâmpada de zinco emite exatamente os comprimentos de onda que átomos de zinco absorvem. Os átomos presentes na amostra absorvem parte dessa luz, e o detector mede quanto de luz sumiu no caminho.

É por isso que a técnica é específica. Para medir zinco, usa-se lâmpada de zinco. Para medir cálcio, lâmpada de cálcio. Não há como confundir um elemento com outro, porque nenhum outro absorve naquele comprimento de onda exato.

Quanto mais luz é absorvida, mais átomos havia na amostra. A relação entre absorção e concentração é convertida em miligramas por outra curva de calibração, com soluções-padrão do elemento.

É o método usado para cálcio, magnésio, zinco, ferro, cobre e selênio. E é da mesma família a técnica usada para o outro lado da moeda: a pesquisa de metais pesados — chumbo, cádmio, mercúrio e arsênio — que precisam estar abaixo dos limites da legislação.

Os dois lado a lado

HPLC / CLAE Absorção atômica
Mede Moléculas orgânicas Elementos químicos
Princípio Separação por afinidade em coluna Absorção de luz por átomos livres
Preparo Extração e dissolução Digestão ácida e atomização
Aplicação típica Vitamina C, A, D, E, complexo B, CoQ10 Cálcio, magnésio, zinco, ferro, cobre, selênio
Também usada para Identificar impurezas e produtos de degradação Pesquisa de metais pesados

Medir não basta: o método precisa ser validado

Um número de laboratório só tem valor se o método que o produziu for confiável. No Brasil, o guia de referência para validação de métodos analíticos é a Resolução RE nº 899/2003 da ANVISA. Os parâmetros que um método validado precisa demonstrar:

Especificidade — o método mede o que se propõe a medir, sem interferência de outros componentes da amostra.
Linearidade — a resposta do equipamento acompanha a concentração de forma proporcional, dentro de uma faixa definida.
Exatidão — o resultado se aproxima do valor real, verificado por recuperação de quantidade conhecida.
Precisão — repetir a análise produz resultados próximos entre si.
Limite de detecção e de quantificação — a menor quantidade que o método consegue detectar, e a menor que consegue medir com confiança.
Robustez — pequenas variações nas condições não mudam o resultado.

A distinção que separa um laudo de outro

Existe uma diferença prática, pouco discutida e economicamente relevante, entre dois documentos que se parecem:

Laudo do fornecedor da matéria-prima. Atesta a qualidade do insumo no momento em que ele saiu do fornecedor. Não diz nada sobre o que aconteceu depois: transporte, armazenamento, mistura com excipientes, compressão, encapsulamento, tempo de prateleira.

Laudo do lote do produto acabado. Atesta o produto que efetivamente está dentro do frasco que a pessoa comprou.

O segundo custa mais e diz mais. É a diferença entre confiar no fornecedor e verificar o próprio produto.

Essa distinção pesa especialmente em produtos instáveis. É o caso do óleo de peixe, que oxida com luz, calor e tempo — como mostrou a análise de 51 óleos de peixe feita pela USP, em que a maioria das amostras divergia do EPA e do DHA declarados no rótulo.

O que um laudo não prova

Um laudo de análise é uma medida de conteúdo, não um atestado de eficácia.

Ele confirma que a quantidade declarada está no produto. Não diz que essa quantidade será absorvida pelo organismo de quem toma, nem que produzirá qualquer efeito. Absorção depende de forma química, de matriz alimentar, de estado nutricional e de fatores individuais — nada disso é medido por HPLC ou por absorção atômica.

E o laudo tem data. Ele descreve o produto no momento da análise. Nutrientes instáveis — vitamina C, vitamina A, óleos poli-insaturados — mudam ao longo da vida de prateleira. Por isso o laudo é de lote: um lote não responde por outro, e uma análise não responde pelo produto para sempre.

Quem promete resultado com base em laudo está esticando o que o documento diz.

Por que a FDC insiste nesse assunto

A FDC mantém laboratório próprio e confirma o teor de vitaminas por HPLC e o de minerais por espectrometria de absorção atômica, lote a lote. Isso está declarado nas páginas de produto da loja, e não é um detalhe decorativo: é o que permite que o número da tabela nutricional seja uma medida, e não uma expectativa.

Explicar o método é uma escolha deliberada. Uma marca que se apoia em análise laboratorial ganha quando o consumidor sabe que esses parâmetros existem e passa a perguntar por eles — inclusive para a concorrência.

Na FDC, o teor declarado é confirmado no laboratório próprio — vitaminas por HPLC, minerais por espectrometria de absorção atômica, lote a lote.

Conhecer a linha FDC

Referências

  1. BRASIL. ANVISA. Farmacopeia Brasileira, Volume I — Métodos gerais de análise. Disponível em: gov.br/anvisa
  2. BRASIL. ANVISA. Resolução RE nº 899, de 29 de maio de 2003 — Guia para validação de métodos analíticos e bioanalíticos. Disponível em: bvsms.saude.gov.br
  3. Abe-Matsumoto LT, Sampaio GR, Bastos DHM. Validação e aplicação de métodos cromatográficos para determinação de vitaminas em suplementos. Rev Inst Adolfo Lutz. 2016;75:1–14. DOI: 10.53393/rial.2016.v75.33509
  4. Kus-Yamashita MMM. Avaliação das características químicas dos óleos de peixe encapsulados comercializados no estado de São Paulo [tese de doutorado]. São Paulo: Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade de São Paulo; 2023. Disponível em: teses.usp.br
  5. Codex Alimentarius. Standard for Fish Oils, CXS 329-2017. FAO/WHO.

Perguntas frequentes

O que é HPLC na análise de suplementos?

É a cromatografia líquida de alta eficiência. A amostra é empurrada sob alta pressão por uma coluna que separa os componentes por afinidade química; um detector registra quando cada substância sai e em que quantidade. É o método de referência para quantificar vitaminas.

Para que serve a espectrometria de absorção atômica?

Para quantificar minerais. A amostra é digerida e atomizada, e sobre os átomos livres incide a luz de uma lâmpada feita do próprio elemento medido. A quantidade de luz absorvida é proporcional à concentração. É usada para cálcio, magnésio, zinco, ferro, cobre e selênio — e na pesquisa de metais pesados.

Por que vitaminas e minerais precisam de métodos diferentes?

Vitaminas são moléculas orgânicas e precisam ser separadas dos demais componentes antes de medidas — daí a cromatografia. Minerais são elementos químicos: não há molécula para separar, e a identificação vem da absorção de luz em comprimento de onda específico de cada átomo.

Qual a diferença entre laudo do fornecedor e laudo do lote?

O laudo do fornecedor atesta a matéria-prima antes do processamento. O laudo do lote atesta o produto acabado que está no frasco comprado, depois de toda a cadeia de fabricação e do tempo de prateleira. O segundo custa mais e diz mais.

Um laudo prova que o suplemento funciona?

Não. Ele confirma que a quantidade declarada está no produto. Absorção e resposta individual dependem de outros fatores, que nenhum desses métodos mede. E o laudo tem data: descreve o produto no momento da análise, e um lote não responde por outro.

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