Os dados: o que as pesquisas mostram sobre o Brasil
Um estudo coordenado pela Fiocruz Bahia, publicado no Journal of the Endocrine Society, avaliou níveis de vitamina D em adultos saudáveis em Salvador, Curitiba e São Paulo. Os resultados foram reveladores: a prevalência de deficiência foi de 15,3% e de insuficiência de 50,9% no total da amostra. Em São Paulo, 20% dos participantes apresentaram deficiência franca. Os pesquisadores observaram que esses números são similares às taxas encontradas em países europeus — o que contraria a intuição de que países tropicais estão protegidos.
O estudo identificou ainda que os níveis de vitamina D caem aproximadamente 30% durante o inverno em cidades como São Paulo e Curitiba em comparação ao verão. Isso significa que uma pessoa que já entra no inverno com níveis insuficientes chega ao pico da estação com níveis ainda mais baixos — exatamente quando a demanda imunológica é maior.
Por que o sol brasileiro não resolve o problema
A síntese cutânea de vitamina D depende de raios UVB — não de qualquer luz solar. O ângulo dos raios UVB em relação à superfície terrestre varia ao longo do dia e do ano. Em latitudes abaixo de 33° (que inclui boa parte do Brasil), os raios UVB chegam com ângulo menos eficiente fora do horário entre 10h e 15h e nos meses de inverno. Além disso, viver em cidades com poluição atmosférica reduz a quantidade de UVB que chega à superfície.
Outros fatores que reduzem a síntese cutânea mesmo com sol disponível:
Uso de protetor solar (FPS 15 ou maior reduz a síntese em até 99%) · Roupas que cobrem a maior parte do corpo · Trabalhar em ambientes fechados durante o horário de maior incidência · Pele mais escura (a melanina filtra os raios UVB) · Excesso de peso (vitamina D lipossolúvel fica sequestrada no tecido adiposo) · Envelhecimento (pele com menor capacidade de síntese) · Poluição atmosférica · Sedentarismo (menos exposição ao ar livre)
O protetor solar é um ponto de atenção especial: ele é indispensável para a prevenção do câncer de pele e do envelhecimento precoce. A questão não é deixar de usar protetor, mas reconhecer que seu uso correto (necessário) compromete a síntese — o que torna a obtenção de vitamina D por outras vias ainda mais relevante.
Por que a alimentação também não resolve
Apenas cerca de 10% das reservas de vitamina D do organismo são obtidas pela alimentação. As fontes alimentares são limitadas: peixes gordurosos de águas frias (salmão, sardinha, atum), ovos e produtos lácteos e cereais fortificados. A dieta média brasileira consome peixes gordurosos com baixa frequência, o que torna a contribuição alimentar insuficiente como única fonte na maioria dos contextos.
O Brasil não tem política nacional de fortificação de alimentos com vitamina D — diferente do Canadá, Finlândia e outros países que fortalecem leite e cereais. Isso amplia ainda mais o gap entre o que a alimentação oferece e o que o organismo precisa.
O que a deficiência de vitamina D pode causar
A deficiência de vitamina D é freqüentemente assintomática em estágios iniciais. Quando se manifesta, os sinais mais comuns são cansaço persistente, fraqueza muscular, dores ósseas difusas, maior suscetibilidade a infecções respiratórias e alterações de humor. A deficiência crônica e grave pode levar à osteomalacia em adultos (amolecimento dos ossos) e ao raquitismo em crianças.
Além disso, pesquisas associam níveis baixos de vitamina D a maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, alterações autoimunes e declínio cognitivo. Essas associações são observacionais e não confirmam causalidade direta em todos os casos, mas reforçam a importância de manter níveis adequados como parte de uma estratégia de saúde preventiva.
Como saber se seus níveis estão adequados
O diagnóstico da deficiência de vitamina D é feito por exame de sangue — a dosagem de 25-hidroxivitamina D (25-OH vitamina D). O exame é amplamente disponível no Brasil. Os valores de referência variam conforme a entidade científica consultada, mas de forma geral:
Deficiência: abaixo de 20 ng/mL · Insuficiência: 20 a 30 ng/mL · Nível adequado geral: 30 a 100 ng/mL · Nível preferido para saúde óssea e imunológica: acima de 40 ng/mL segundo muitos especialistas
O exame é especialmente recomendado antes de iniciar a suplementação com doses mais altas, para que a dose seja adequada ao nível basal de cada pessoa. A suplementação orientada por profissional de saúde, de acordo com o estudo da Fiocruz, pode reduzir em até 60% as chances de deficiência.
Quem tem maior risco de deficiência no Brasil
Alguns grupos merecem atenção redobrada: pessoas que trabalham em ambientes fechados durante o dia todo; idosos, cuja síntese cutânea é menos eficiente; pessoas com excesso de peso; pessoas com pele mais escura; quem mora em regiões de maior latitude (Sul e Sudeste) e quem tem alimentação pobre em fontes de vitamina D.
O inverno agrava esse risco de forma sazonal e previsível. Quem já entra na estação fria com níveis abaixo de 30 ng/mL provavelmente sairá dela com níveis ainda mais baixos sem nenhuma intervenção.
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O que evitar ao suplementar vitamina D
Vitamina D3 FDC 2000 UI — colecalciferol em embalagem fotoprotetora, produzida nos EUA com duplo certificado.
Conhecer Vitamina D3 FDCReferências bibliográficas
- Moreira ED, et al. Vitamin D deficiency in Brazil: prevalence and risk factors. J Endocr Soc. 2020;4(Suppl 1). doi:10.1210/jendso/bvaa046.1085
- Holick MF. Vitamin D deficiency. N Engl J Med. 2007;357(3):266–281.
- Tripkovic L, et al. Comparison of vitamin D2 and vitamin D3 supplementation. Am J Clin Nutr. 2012;95(6):1357–1364.
- Cashman KD. Vitamin D Deficiency: Defining, Prevalence, Causes, and Strategies. Calcif Tissue Int. 2020;106(1):14–29.
- NIH. Vitamin D Fact Sheet. https://ods.od.nih.gov/factsheets/VitaminD-HealthProfessional/
Perguntas frequentes
Por que o Brasil tem alta prevalência de deficiência de vitamina D?
A vida urbana brasileira reduz a exposição efetiva a raios UVB: protetor solar, trabalho em ambientes fechados e poluição atmosférica. Pesquisas da Fiocruz mostram 50,9% de insuficiência em adultos saudáveis avaliados em SP, Curitiba e Salvador.
Como saber se estou com deficiência de vitamina D?
Por exame de sangue — dosagem de 25-hidroxivitamina D. Abaixo de 20 ng/mL indica deficiência; entre 20 e 30 ng/mL, insuficiência. Recomendado antes de iniciar suplementação com doses mais altas.
Devo suplementar vitamina D no inverno mesmo vivendo no Brasil?
Para boa parte dos brasileiros em SP e Curitiba, sim — os níveis caem 30% no inverno. Quem já está insuficiente no verão fica ainda mais comprometido no inverno. A suplementação orientada pode reduzir em até 60% as chances de deficiência.